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Convidados
7 de abril de 2015

Gabriele: a mulher além da cadeira

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Aos 12 anos, ela ficou paraplégica, quando sofreu um acidente na tirolesa no grupo de escoteiros. Em algumas semanas, logo retornou às atividades rotineiras. Hoje, sempre disposta e super ativa, Gabriele adora ir a restaurantes, cinemas e shows
Gabriele e Nathalia
Gabriele e Nathalia

Gabriele Talaia tem 22 anos e é cadeirante. Nos conhecemos em 2013, durante uma ação social da faculdade, e, aos poucos, nos tornamos mais próximas – o que tem nos rendido boas risadas, algumas indignações e, claro, uma grande troca de experiências. Afinal, temos longas conversas, especialmente por conta da mobilidade reduzida, que nos leva a comentários e situações – tão hilárias, quanto aborrecedoras – que só quem é jovem e cadeirante é capaz de entender.

Aos 12 anos, ela ficou paraplégica, quando sofreu um acidente na tirolesa no grupo de escoteiros. Passou 30 dias internada. Depois disso, em algumas semanas, logo retornou às atividades rotineiras, incluindo a escola e, também, o escotismo.

Sempre disposta e super ativa, Gabriele adora ir a restaurantes, cinemas e shows. Além disso, ela costuma acompanhar diversos festivais e grandes eventos, como Lollapalooza, Parada do Orgulho LGBT e Jogos Parapan-Americanos, por exemplo.

Abaixo, confira o descontraído bate-papo que tive com essa divertida universitária que, entre trabalho e faculdade, ainda arruma um tempinho para manter o blog Andando de Cadeira.

😉

Nathalia – Bem-vinda ao blog, Gabriele! E aí, como foi esse episódio do acidente? Afinal, ter 12 anos, com ou sem deficiência, já é um caos na vida de qualquer um, né!?
Gabriele – Pois é… eu tinha uma vida normal, ia sozinha à praia e à escola, tinha a rotina de escoteiro e aí, em um belo sábado, tudo mudou.

Nathalia – Mas como foi tudo isso para você? Teve algum apoio religioso? A família e os amigos ajudaram?
Gabriele – Pode parecer estranho, mas eu nunca passei um período de rejeição, não tive ódio. Desde o primeiro momento, eu aceitei. Talvez tenha sido reação por conta da morfina que tomei na UTI (risos), mas foi tudo bem tranquilo! Minha família vinha chorar e eu falava “calma gente, eu estou viva, ninguém precisa ficar chorando”. Ou seja, eu é que ficava dando apoio a eles e, por eu ter aceitado tudo tão bem, minha família acabou se tranquilizando.

Nathalia – Eu li que você voltou para a escola, em apenas um mês…
Gabriele – Fiquei internada durante um mês, exatamente. Sofri o acidente no dia 11 de junho e saí do hospital em 11 de julho. Já na segunda semana de agosto, mais ou menos, eu já tinha voltado ao colégio, ao grupo de escoteiros e para todas minhas atividades.

Nathalia – Mas essa força já era uma coisa sua ou você, com a deficiência, aprendeu a ter um outro olhar da situação?
Gabriele – Acho que era uma força que eu já tinha. Mas a deficiência acabou potencializando essa virada de página. Mesmo porque, ou você se comporta para impedir o dó, o “coitadismo”, aceita e tira proveito disso, ou sei lá o que pode acontecer.

Nathalia – E como foi voltar para casa em uma cadeira de rodas? O lugar já era adaptado, acessível, plano?
Gabriele – Não, eu morava em um sobrado de três andares e meu quarto ficava no último andar. Foi bem complicado retornar, pois tivemos de adaptar tudo, mas meus pais já tinham arrumado aquela bendita cama hospitalar. Também parei de dividir o quarto com minha irmã e passei a dormir com minha mãe. Ficamos lá, assim, até fevereiro do outro ano, quando compramos uma casa térrea.

Nathalia – Antes do acidente, você e sua família já tinham convivido com algum cadeirante?
Gabriele – Nada! Eu caí de gaiata, fui a primeira.

Nathalia – Com relação à autoestima, como foi quando você, cadeirante, começou a se enxergar como mulher?
Gabriele – Ah, isso foi um pouco difícil, pois sofri o acidente aos 12 anos e, até então, eu nunca tinha tido namorado nem beijado. Então essa parte foi complicada, pois eu tive de me adaptar a viver em cima de uma cadeira.

Nathalia – Então, podemos dizer que você teve uma adolescência bem parecida com a minha, não?
Gabriele – É…eu nunca tinha namorado antes do acidente. E quando você namora pela primeira vez, rola um choque, pois é a hora que você fala “nossa, mas você gosta de mim, mesmo eu sendo cadeirante?”. Até porque a coisa já difícil pra todo mundo (risos), inclusive pra quem pode usar salto alto e sainha. E a gente costuma ficar descalça, de cadeira de rodas pra lá e pra cá e, ainda, descabelada. (risos)

Nathalia – Eu, por exemplo, nunca pude usar salto. E você? Como fica essa coisa do “eu não uso salto”?
Gabriele – Eu usava salto 15, plataforma. Chorei muito quando eu tive de doar todos os meus sapatos. Hoje em dia, já me acostumei a só usar tênis e, quando vou a uma festa, coloco sapatilhas ou botas.

Nathalia – Não quero generalizar, mas eu percebo que a maioria enxerga a cadeira, em primeiro plano. Ou seja, não olha pra mulher, pro sentimento…
Gabriele – É, por mais bacana que o cara seja e que você seja, também, qualquer pessoa vai olhar pra cadeira, primeiro. E a grande questão é: ele vai bater e ficar focado na cadeira ou ele vai querer conhecer aquela mulher que existe além da cadeira?

Nathalia – Você já deve ter ouvido perguntas estranhas. Lembra de alguma mais bizarra?
Gabriele – De imediato, não lembro, mas sempre tem aquela “como você usa o banheiro?”, uma das mais clássicas.

Nathalia – E já aconteceu alguma situação ruim que te fez ir parar na justiça?
Gabriele – Nunca! Mas, já passei raiva. Um vez, em um Cinemark, fui comprar meia entrada para mim e minha irmã, que também é universitária. Quando cheguei ao guichê, a moça perguntou se eu tinha carteirinha especial, afirmando que eu precisava de alguma coisa que comprovasse que eu era deficiente. Pode? Aí, olhei pra baixo, olhei pra cima e, minha irmã, que tava toda vermelha, deu um tapa na mesa: “chama o gerente!”, disse. “Você não tá vendo que ela é cadeirante? Tá louca?”, completou. Em seguida, “pelo amor de Deus, você não tem um bilhete único ou algum documento que comprove?”, falou a atendente. Logo respondi que não tenho, explicando que ninguém nunca perguntou se eu era cadeirante mesmo ou se eu estava na cadeira só por diversão.

Nathalia – Como nasceu a ideia de você fazer um blog?
Gabriele – Uma amiga sempre me dizia “Você tem que contar o que você passa! Precisa opinar, mesmo que ninguém leia”.

Nathalia – Com o blog, você acha que já conseguiu passar algumas ideias adiante? Já teve confrontos?
Gabriele – Sim, já tive confrontos, pois eu escrevo sempre a minha opinião sobe cada tema. Então, às vezes, é a minha opinião versus a opinião de outra pessoa. O texto que eu tive mais acesso foi sobre a pesquisa da célula-tronco, bem na época em que queriam barrar o projeto. Ai eu postei algo na linha do “vão barrar, mas vão mexer com o direito da pessoa com deficiência”. Enfim, foram vários comentários e reações.

Nathalia – Falando nisso, você concorda com a visão de coitado que a mídia passa da pessoa com deficiência?
Gabriele – Não concordo. Cadeirante, pra maioria, continua sendo castigo. Até porque toda novela que tem uma pessoa má, o castigo é a personagem virar cadeirante. Eu fiz um post no blog sobre isso. Eles estão muito errados.

Nathalia – Nos Estados Unidos, por exemplo, não existe fila preferencial porque tudo é acessível por lá. Você acha certo haver protecionismo à pessoa com deficiência?
Gabriele – Não acho certo porque nenhuma forma de segregação é legal. Esse é um ponto. Mas, deixar largado, sem ter um sistema pra tutelar, é um problema. Não tem como… querendo ou não, por mais que a gente faça campanha, a gente sabe como tudo é de verdade: ninguém dá acesso preferencial, ninguém dá licença…

Nathalia – Você faz algum tratamento, hoje?
Gabriele – Não faço nada….

Nathalia – Por quê? Você não quer, não precisa ou não gosta?
Gabriele – Não gosto e nunca tive tratamento, mesmo. O que eu fiz foi frequentar a AACD e, na hora que eu terminei, parou tudo…. nunca fiz mais nada.

Nathalia – Mas falaram que você não precisava ou você tinha outros objetivos?
Gabriele – Era difícil chegar lá, era difícil conseguir ir, difícil tudo…e acabou.

Nathalia – Você lida com a sua deficiência todo dia, mas não pensa em fazer algum tratamento?
Gabriele – Não, porque eu nunca tive vontade de voltar a andar. Se me falassem que tem um tratamento X que vai fazer o que eu gostaria, que é voltar a ter a sensibilidade – porque eu não tenho nenhuma sensibilidade do umbigo para baixo e é isso que eu sinto falta! Então, se você me falar que um tratamento vai fazer eu voltar a sentir, OK. Mas tratamento com teste disso, teste daquilo, eu não tenho interesse. Não tenho vocação pra ser rato de laboratório. E outra, quem me diz se a célula-tronco vai virar medula ou se vai virar um tumor? Enquanto não tiver algo seguro, garantido, eu não tenho interesse nenhum!

Nathalia – Para encerrar o nosso papo, que recado você deixa pra uma pessoa que, como você, sofreu um acidente, agora?
Gabriele – Respire fundo, pois dá pra viver. Vão tentar, não te botar pra baixo… mas, às vezes, inconscientemente, as pessoas acabam aderindo ao coitadismo. Mas não se deixe abater! Você é seu próprio limite… o que você pensar que não consegue fazer, você não conseguirá. Por outro lado, se você falar “eu quero, eu posso”, você fará, com certeza!

Nathalia – Adorei nossa conversa, Gabriele! Obrigada e espero poder contar com você em outras ocasiões, nessa luta contínua pela acessibilidade!
Gabriele – Com certeza!

 

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