1. Ir para o conteúdo
  2. Ir para o menu
Quem é Nathalia?
7 de abril de 2015

A primeira vez...

Compartilhar

Desde que cheguei ao mundo, já trouxe um certo pioneirismo comigo. Afinal, fui a primeira filha, a primeira neta, a primeira sobrinha e, também, a primeira pessoa com deficiência das famílias Blagevitch e Fernandez – o que exigiu um certo empenho de todos em um exercício de questionamentos e descobertas.

Mas o fato de eu ter nascido com paralisia cerebral me tornou pioneira em muitas outras coisas. Afinal, vivemos em uma sociedade deficiente que, infelizmente, não está muito habituada a conviver com pessoas como eu, tampouco a facilitar o dia a dia das pessoas com deficiência.

Abaixo, confira o álbum de fotos com algumas experiências relacionadas a esse pioneirismo “forçado” e, também, os relatos de quem, comigo, teve sua primeira vez no mundo da pessoa com deficiência.
🙂

DEPOIMENTOS

Stephanie Mahnke

I’ve been blessed with the opportunity to teach Nathalia only for a session, but it was more than enough to be inspired by her tenacity and perseverance. Every week she was presented with new challenges both inside and outside the classroom, but her unflinching determination to continue with her studies not only carried her to graduation, but carried the spirits of myself and other students. She has truly been an inspiration, and everyone who shared a class with her walked away with a better idea of how to confront life’s struggles in all its forms.

Stephanie Mahnke
ELS Language Center
College of Southern Nevada


Flávio Sampaio

Horizonte longo, imenso, cheio de vida e possibilidades de viver uma vida “normal” (sim, com aspas, já que uma pergunta recorrente na vida dela é “quer fazer filhos, mas como?”). E Nathalia logo responde: “Quer que desenhe?” – achei ótimo!

Ouvindo, vendo e percebendo a Nathalia, me sinto impotente e apático com a vida medíocre que levo.  Ela é cheia de vivacidade, com um senso de humor delicioso de irônico que muitos não têm, especialmente os tidos como “normais” (sim, também com aspas, ser normal é apenas um estado de espírito; não uma condição física). 

Andar, ir e vir não são atos impeditivos na vida dela. Ela tem bastante autonomia, afinal, estudou, viajou, intercambiou pelo mundo e com pessoas comuns, como ela…. sim, ela é comum! Ao primeiro contato visual talvez não pareça. Mas, sim, ela é normalmente normal. 

Para mim, o contato com ela foi uma experiência de vida. Vi que temos muito a aprender sobre o que é ter uma limitação. Também vi o que, na verdade, é SER limitado, mesmo sem qualquer limitação. Afinal, limitação, todos nós temos, especialmente pelo fato de, muitas vezes, não enxergarmos um horizonte próximo por conta dos abismos imaginários que estão dentro de nós. Falta praticidade, algo que ela tem.

A forma como conheci Nathalia foi ótima e altamente produtiva para mim. Sou fotógrafo, vivo de imagem e sempre tenho de fazer uma análise aprofundada de como vou retratar cada cliente. Parti para nossa primeira reunião, cheio de porquês e de preconceitos idiotas. Cheguei atrasado e fiquei quieto para ouvir tudo o que Nathalia fazia, pensava e queria para vida dela.

Achei o máximo ouvir que ela, além de cursar direito na época, fazia academia, não apenas por cuidados fisioterapêuticos, mas também por estética. De repente, ela conta que colocou silicone por vaidade. Ah, essa foi uma frase decisiva para mim, senti que a vaidade e a vontade de vida dentro dela eram imensas, o que me ajuda muito na hora de estabelecer o que sugerir na estética das imagens que construo em um retrato. 

Para ela, pensei um horizonte de metrópole, queria ambientes teoricamente inóspitos, até ruins, e já sabia que a resposta dela seria positiva. E eu estava certo: fomos fotografar no Edifício Copam e no Terraço Itália, dois dos prédios de maiores prestígios de São Paulo e, depois, no meu estúdio, onde trabalhamos com muita diversão e altíssimo astral.

Descobri que a Nathalia dá um banho em muita gente anormal que anda pelas ruas, especialmente em termos de locomoção, projeção de vida e empreendedorismo. Com ela, aprendi, e muito, que preciso, de fato, enxergar tudo com mais tranquilidade e a caminhar com tesão pela vida. 

É isso que vejo nela: uma pessoa com muito tesão pela vida. 
Ela é feliz, e muito feliz.
E eu, depois de conhece-la, também sou mais feliz.

Flávio Sampaio
fotógrafo da Nathalia,
com muito orgulho!
😉

Rogério Godinho

Nathalia tomou posse de minha vida durante um ano. Foi voluntário de minha parte. Afinal, para contar, eu precisava entender. Para entender, precisava me colocar no lugar dela. Por inteiro. É uma espécie de empatia estendida.

Então, comecei. O que pensar de Nathalia? Primeiro, você imagina que a restrição de mobilidade ou qualquer outra questão física pode ser o grande problema. Rapidamente, ficou evidente que isso era secundário. Suas características físicas não a definem como pessoa. O que a define é seu riso. Suas escolhas éticas. Seu vício por chocolate. Esse conjunto infinito forma a Nathalia, – simplesmente uma pessoa feliz.

Durante esse ano, rimos juntos, tomamos decisões e consumimos chocolate. Aquela menina já era uma mulher que, para mim, havia se transformado simplesmente na Nathi. E eu havia recebido um presente para a vida inteira. Aprendi que da felicidade dela ela cuida, que não precisa de favor de ninguém. Hoje, eu digo para todos, com a voz da Nathi:

“Seu único desafio é respeitar meus direitos”.

Rogério Godinho
jornalista e autor da biografia de Nathalia:
Tente outra vez

comentários comente

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *