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Convidados
3 de dezembro de 2015

A deficiência da sociedade

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Por Luiz Alexandre Souza Ventura*
Ventura - 2015
Luiz Alexandre Souza Ventura | Vencer Limites | foto: divulgação 

O tratamento que uma sociedade dá ao cidadão com deficiência serve de parâmetro, de espelho, para determinar como essa mesma sociedade trata todas as pessoas. Isso porque, quando não há oportunidades reais, concretas, para que alguém consiga exercer a cidadania de forma efetiva, é comum a criação individual dessas possibilidades, por meio do trabalho árduo, da dedicação, do empenho e da perseverança. São muitos os casos nos quais o sucesso foi obtido onde não havia, aparentemente, incentivos ou qualquer abertura neste sentido.

Existem, no entanto, caminhos que não podem ser trilhados somente porque não há mecanismos que tornem isso possível, não há ferramentas para chegar ao destino pretendido, e a ausência de caminhos e ferramentas, muitas vezes, quase todas as vezes, é fruto da falta de conhecimento sobre sua utilidade e importância. É a falta da acessibilidade de fato, da inclusão verdadeira, do entendimento sobre como o que é construído para um pode servir para todos.

Não se trata apenas da acessibilidade arquitetônica, da construção de rampas ou elevadores, nem somente dos recursos como Libras, braille ou audiodescrição. O acesso total permite que todos participem, opinem, colaborem e usufruam de ações e mecanismos em todos os setores. Saúde, educação, cultura, esporte, lazer, trabalho, turismo, gastronomia e muito mais deve ser universal, no qual todas as pessoas fazem parte, são integradas, incluídas.

Percebemos, infelizmente, uma tendência ao inverso dessa filosofia, um entendimento equivocado de que um ambiente universal é impossível de ser concebido, uma avaliação da diferença, da diversidade, como impedimento.

O combate a essa percepção superficial do ser humano precisa ser constante, mas não pode ter a mesma dinâmica de seu oponente. O resultado positivo dessa luta virá com a ampliação do conhecimento. E para aumentar a abrangência de acesso ao universo da diversidade é fundamental educar.

Tome como exemplo o caso ocorrido neste ano em Maringá, no Paraná, quando um homem estacionou seu carro em uma vaga reservada a pessoas com deficiência, sem precisar desse espaço. Um grupo colou pequenos adesivos de cor azul por toda a lataria do veículo. Ao retornar, o motorista foi xingado, vaiado e saiu do local com pressa.

Não acredito que ações desse tipo consigam conscientizar. Aliás, entendo que causam o inverso, geram apenas revolta na pessoa que cometeu o ato.

Neste caso, além da multa prevista pelo Código de Trânsito, esse motorista deveria ser ‘punido’ guiando veículos específicos para o transporte de pessoas com deficiência, com a responsabilidade de garantir entrada e saída do passageiro, além de ter a obrigação de estacionar somente em vagas reservadas.

Ainda sobre o assunto, tivemos a oportunidade de constatar como a criação da revolta, da indignação, tem pouco a contribuir para a conscientização. No último dia 30 de novembro, o Conselho Municipal das Pessoas com Deficiência da Cidade de Curitiba, no Paraná, em uma ação para destacar o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência (celebrado em 3 de dezembro), colou em um outdoor da cidade a frase ‘Pelo fim dos privilégios aos deficientes’, creditando a mensagem ao ‘Movimento de Revisão dos Direitos’.

Houve uma enorme onda de indignação e muitas manifestações contrárias ao outdoor, inclusive por milhares de pessoas que jamais prestaram atenção à situação da pessoa com deficiência no Brasil. No dia seguinte tudo foi explicado e, como era esperado, a explicação não teve a mesma força, não alcançou a mesma dimensão das revoltas.

Essa mesma repercussão não foi obtida com uma ação apresentada no mesmo dia das redes sociais, chamada de #DeficiênciaDasPessoas, que estimula pessoas com deficiência a relatarem sua batalha diária contra preconceito, discriminação, desconhecimento, exclusão e, infelizmente, a violência.

Somente por meio da educação, da ampliação do conhecimento, a compreensão abrangente e aprofundada sobre o universo da pessoa com deficiência será alcançada. Entender verdadeiramente características, detalhes e diferenças, é a base fundamental para a sociedade busca o caminho da evolução.

*Luiz Alexandre Souza Ventura tem 44 anos, é jornalista, repórter colaborador do jornal ‘O Estado de S. Paulo’ e autor do blog Vencer Limites, hospedado no portal ‘estadão.com.br‘.

 

comentários comente
  1. Luiz Alexandre Souza Ventura disse:

    Nathalia Blagevitch e Ana Cássia Siqueira, muito obrigado pela oportunidade 🙂

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