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Na Mídia
11 de junho de 2014

Estudante de direito com mobilidade reduzida faz documentário sobre acessibilidade nos aeroportos das cidades-sede da Copa

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Nathalia Blagevitch Fernandez, universitária paulistana que tem paralisia cerebral, percorreu 15 aeroportos que atendem às capitais do Mundial para relatar problemas de comportamento e infraestrutura.

Vida Mais Livre | 10|6|2014

Foto da matéria do site Via Mais Livre
Foto da matéria do site Via Mais Livre

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)Site externo. apontam que mais de 45,6 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência (visual, auditiva, física, intelectual, múltipla, transtornos globais de desenvolvimento ou superdotação).

Ao cruzarmos este dado com a média de três integrantes por família, segundo a mais recente Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (Pnad), temos de considerar que os temas mobilidade e inclusão fazem parte do dia a dia de quase 140 milhões de brasileiros (incluindo apenas as famílias, sem contar educadores, médicos e profissionais, em geral, que oferecem atendimento a essas pessoas).

Mesmo assim, diante de números tão elevados, acessibilidade e inclusão ainda são questões que necessitam de muito desenvolvimento no Brasil – além, claro, de planejamento, implementação e fiscalização dos direitos dos cidadãos com deficiência ou mobilidade reduzida.

Para testar, na prática, as diversas questões ligadas à acessibilidade no Brasil, uma universitária paulistana de 23 anos decidiu fazer um documentário sobre os aeroportos das cidades-sede da Copa 2014Site externo..

Com mobilidade reduzida por conta de uma paralisia cerebral, Nathalia Blagevith Fernandez, viajou para as 12 capitais que irão sediar o mundial, decolando e/ou aterrissando de um dos 15 aeroportos que atendem às respectivas regiões – só não foi ao de Pampulha, em Belo Horizonte, pois uma forte crise de labirintite a impediu de viajar.

Nathalia, que se forma em direito no próximo mês, fez todas as viagens por conta própria, ao longo de 2013, utilizando companhias aéreas variadas. A bordo de uma scooter (carrinho motorizado para quem tem mobilidade reduzida), ela gravou diversas imagens que demonstram as reais dificuldades que as pessoas com deficiência enfrentam no dia a dia, especialmente as relacionadas a banheiros, balcões, vagas exclusivas, tipos de embarque e desembarque, táxis e ônibus acessíveis, informações em braile, intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras) – o segundo idioma oficial do Brasil – etc.

Trechos da jornada

Em Guarulhos (SP), no Aeroporto Internacional de São Paulo (Governador André Franco Montoro), Nathalia observou três carros estacionando na vaga de deficientes, em apenas quinze minutos – incluindo dois táxis. Quando chegou ao balcão para o check-in, a universitária solicitou dois assentos na primeira fileira, como garante o direito da pessoa com deficiência. Porém, para consegui-los, foi preciso muita discussão com vários atendentes.

Ainda antes do embarque, Nathalia também descobriu que não há sequer um intérprete de Libras disponível. “Ele só trabalha em escala? E se houvesse um passageiro com deficiência auditiva no dia em que não era a sua escala? Essa pessoa não teria como ser atendida?”, questiona.

Outro ponto negativo no mesmo local foi o banheiro para deficientes. Além de estar ocupado por uma comissária sem deficiência, o espaço é pequeno demais para a movimentação de cadeirantes e a descarga adaptada (com alavanca) não alcança o botão que aciona o sistema.

O aspecto positivo ficou por conta do embarque, pois os funcionários da companhia aérea a acompanharam no ambulift (plataforma elevatória para embarque e desembarque de pessoas com mobilidade reduzida) e realizaram todo o procedimento de segurança, inclusive afivelando o cinto de segurança que fixa a cadeira de rodas ao equipamento.

Chegando ao Aeroporto Internacional Marechal Rondon, em Cuiabá (MT), Nathalia ficou satisfeita com o desembarque. Embora não houvesse ambulift ou finger (passarela móvel de embarque e o desembarque), os funcionários da companhia aérea a desembarcaram em uma cadeira de rodas, sem problemas. “Fiquei muito contente com Cuiabá. Não esperava um lugar com rampa e com todos os balcões rebaixados”, comemora.

No mesmo aeroporto, os pontos positivos também ficaram por conta dos adesivos antiderrapantes fixados nas rampas e do banheiro que permite facilidade na movimentação do cadeirante. No entanto, Nathalia não encontrou táxis acessíveis na chegada, tampouco na saída, e também não conseguiu um interprete de Libras por lá.

Ao sair de lá, indo para o check-in, Nathalia encontrou dificuldades para manobrar sua scooter no acesso ao saguão, pois encontrou uma curva de ângulo bem acentuado e a elevação da rampa dificultava a subida. Outra boa surpresa dela foi perceber que a equipe da Azul já sabia os procedimentos para embarcar pessoas com deficiência.

Porém, ao questionar sobre a presença de um intérprete de Libras no balcão da Infraero, a resposta foi negativa, mais uma vez. E, para piorar a situação, um dos funcionários diz a ela que, com surdo, o jeito seria se comunicar no grito. Depois de Nathalia corrigir tamanha desinformação, uma atendente diz que há intérpretes de Libras. Mas isso só acontece de segunda a sexta, no horário comercial. “O mais triste é que a população também não respeita! A área de assentos reservados para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida estava totalmente ocupada por pessoas jovens e, inclusive, por mochilas”, lamenta.

Durante o voo entre Cuiabá e Manaus (AM), Nathalia se surpreendeu com as instruções disponíveis em braile, português, inglês e espanhol. “A equipe da Azul é bastante solidária e sabe como tratar um passageiro com deficiência.”

Já no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, em Manaus (AM), a universitária não encontrou táxis acessíveis, mas achou o banheiro bem amplo. Lá, Nathalia descobriu que os funcionários fazem um curso de acessibilidade para entender as dificuldades dos passageiros e como auxiliá-los, mas também não havia nenhum intérprete de Libras. “Segundo a Infraero, em Manaus, há um intérprete em cada turno, mas no dia da minha visita ele estava de licença”, conta. Mesmo assim, Nathalia considerou Manaus a primeira capital com a equipe inteiramente treinada para receber pessoas com deficiência.

Em Fortaleza (CE), a área de desembarque do Aeroporto Internacional Pinto Martins, não há banheiro adaptado e, para ir ao que fica no saguão, é preciso pegar a bagagem, antes. Neste aeroporto, Nathalia encontrou táxis acessíveis e balcões rebaixados, mas não há sinalização para chegar às rampas, tampouco intérprete de Libras.

No Aeroporto Internacional Augusto Severo, em Natal (RN), o desembarque foi feito com finger e Nathalia observou algumas reformas para ampliar a acessibilidade. No entanto, todos os balcões de atendimento são altos e a cidade ainda não tem táxis acessíveis. A boa notícia é que este foi o primeiro aeroporto onde Nathalia encontrou um funcionário da Infraero com fluência em Libras. Outro ponto positivo foi a existência de um banheiro exclusivo para pessoas com deficiência, inclusive com descarga apropriada – item que ela não viu em outros locais.

Durante a viagem entre Natal e Recife (PE), Nathalia precisou deixar sua scooter e utilizar uma cadeira de rodas da companhia aérea, mais uma vez. “Além da cadeira ser de péssima qualidade, os funcionários não tinham treinamento para lidar com pessoas com deficiência.”

Na chegada ao Aeroporto Internacional Gilberto Freyre, em Recife, Nathalia enfrentou alguns problemas. Dois funcionários a desembarcaram por uma escada comum. Em Recife também não há táxis, nem balcões acessíveis. Os elevadores são pequenos e não comportam um cadeirante mais um carrinho com bagagens, por exemplo. Também não foram encontrados intérpretes de Libras.

No Aeroporto Internacional Deputado Luís Eduardo Magalhães, em Salvador (BA), Nathalia também fez o desembarque por uma escada normal com a ajuda de dois funcionários. “A tripulação da companhia aérea teve de colocar a mão na massa, pois não havia ninguém em solo para ajudar”, lamenta. Neste aeroporto, Nathalia acumulou avaliações negativas. Não há balcão acessível, nem táxis e muito menos intérprete de Libras. Um ponto positivo, segundo ela, foi o procedimento de segurança, feito com bastante eficiência.

De volta a São Paulo, no Aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), o desembarque foi feito por escada com a ajuda de dois funcionários. Não havia balcão de atendimento para pessoas com deficiência, nem intérprete de Libras e táxis acessíveis. Como ponto positivo, Nathalia destacou uma cadeira “tipo robô”, que ela conseguiu usar sem dificuldades. “Seria muito bacana ter algo assim em todos os aeroportos. Eu viajaria todos os dias”, brinca.

Durante a viagem para Curitiba (PR), a universitária encontrou dois livros de orientações: um para quem tem baixa visão e outro em braile. O desembarque no Aeroporto Internacional Afonso Pena, em Curitiba (PR), precisou ser realizado pela sala de embarque porque não havia elevador no desembarque. A sinalização também é ruim e havia funcionários usando o banheiro de pessoas com deficiência como vestiário. Sobre o atendimento para surdos, Nathalia foi informada que era feito por escrito e que o intérprete ficava só até um determinado horário – detalhe: dentre os quase 10 milhões de brasileiros com deficiência auditiva (IBGE), cerca de 2,7 milhões não conhecem a língua portuguesa falada e/ou escrita.

Na hora de deixar este aeroporto com destino a Porto Alegre (RS), Nathalia enfrentou ainda mais problemas. “Os funcionários fizeram uma reunião sobre o meu embarque porque ninguém sabia como proceder com pessoas com deficiência. Tive de pedir a primeira cadeira do avião e ainda deram a etiqueta da scooter na minha mão, sendo que eles deveriam colocá-la no local adequado para que o carrinho fosse despachado. Afinal, eu tenho mobilidade reduzida”, lembra.

No Aeroporto Internacional Salgado Filho, já em Porto Alegre, a surpresa foi encontrar um banheiro bem tecnológico, inclusive com uma tranca automática acionada por botão. Lá, Nathalia também encontrou scooters da Infraero disponíveis para os cadeirantes. “Foi o primeiro aeroporto onde encontrei isso. Por enquanto, esse é o aeroporto mais preparado para receber pessoas com deficiência, apesar de também não ter táxis acessíveis”, destaca.

No balcão de informações do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, ao perguntar sobre o intérprete de Libras, Nathalia é abandonada. “A atendente me deixou falando sozinha, subiu a escada rolante e não voltou mais”, lamenta. No saguão, ela encontrou bebedouros acessíveis e espaços reservados aos cadeirantes na sala de espera. O aeroporto também tem vagas para carros de pessoas com deficiência, boa sinalização de rampas e táxis acessíveis.

O embarque de Congonhas para o Rio de Janeiro (RJ) exigiu um pouco mais de paciência, segundo Nathalia. “A demora foi de meia hora e precisou de uma reunião dos funcionários da companhia aérea até que três deles se dispusessem a realizar o embarque da cadeira.”

Já no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, a universitária foi esquecida dentro do avião e não teve nenhuma orientação em solo após o desembarque. “Depois de bastante tempo, consegui falar com uma funcionária e solicitar que me levasse ao balcão da companhia aérea para fazer uma reclamação.” Neste mesmo aeroporto, a experiência com o banheiro também foi negativa, pois não havia sabonete e a descarga só funciona com tampa do sanitário fechada – tarefa que pode ser difícil para quem tem alguns tipos de deficiência.

Em Brasília (DF), no Aeroporto Internacional Presidente Juscelino Kubitschek, Nathalia encontrou mais pessoas sem deficiência tentando usar o banheiro de deficientes. “As pessoas acham que se o banheiro está vazio, pode usar. Mas, na verdade, o banheiro precisa estar disponível para quem realmente precisa”, explica. A sinalização do local é bem precária e ela também foi esquecida pela companhia aérea. “Um funcionário explicou que isso aconteceu por causa da privatização e que tudo ainda estava sendo modificado.”

A última parada de Nathalia foi no Aeroporto Internacional Tancredo Neves (Confins), em Belo Horizonte (MG), onde ela também não encontrou táxis acessíveis e nem intérprete de Libras disponível. A universitária foi informada que alguns funcionários de companhias aéreas fazem esse papel, mas não é um serviço do aeroporto. “Cheguei ao último destino com muitas surpresas e tristezas, mas foi um grande aprendizado”, conclui.

Fonte: Vida Mais Livre

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