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Na Mídia
11 de junho de 2014

A quadrilha da moça com mobilidade reduzida

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Jovem estudante de Direito, como qualquer pessoa com deficiência, já teve que superar obstáculos; bem-humorada, ela lança um documentário sobre acessibilidade nos aeroportos, durante a Copa.

Papo Reto | 11|6|2014

Foto da matéria do site com Nathalia em destaque
Foto da matéria do site com Nathalia em destaque

“Sabe quadrilha de festa junina?”, pegunta a paulistana Nathalia Blagevitch Fernandez, de 23 anos. “É mais ou menos desse tipo de ajuda que preciso.” O bom humor é constante na fala da estudante de Direito que sonha em trabalhar na ONU – com o tema das pessoas com deficiência. Um erro médico no parto a deixou com parte do corpo paralisado. Ou, em suas palavras: “Tenho mobilidade reduzida”. Há uns dois anos, Nathalia foi a Las Vegas para um intercâmbio. Ela só usa cadeira de rodas para grandes distâncias. Sua cadeira chegou com os fios todos arrebentados.

“Acho que o pessoal da companhia, no Brasil, não sabia como desmontar para guardar no bagageiro. Então, cortaram os fios.” Além da dor de cabeça, o episódio rendeu a vontade de ir aos aeroportos das cidades-sede da Copa, para entender como uma pessoa com deficiência pode se virar de um canto para o outro.

No ano passado, ela foi a 12 cidades e 15 aeroportos. O filme ficou pronto e foi lançado semana passada, só na Internet, em duas partes (Parte 1 e Parte 2). Os pais, empresários, custearam tudo.

A ideia da feitura do documentário é super simples. Munida das regras estabelecidas pela própria Anac, Nathalia fez perguntas aos funcionários das companhias, como: “Quero um lugar na primeira fila das poltronas, com acompanhante. Tem?” É curioso notar a perplexidade e falta de preparo de todos ao lidar com seus questionamentos.

Para executar o documentário, ela precisou se planejar. Quando era necessário pernoitar nas cidades, levava a mãe, além do cinegrafista contratado para a empreitada. “É que eu preciso de ajuda para colocar e tirar as roupas.” Ela revela que três coisas a incomodaram muito nos aeroportos. Nesta ordem: carros que ocupavam, no setor de embarque e desembarque, as vagas destinadas a pessoas com deficiência, a quantidade de trabalhadores das companhias aéreas usando o banheiro para pessoas com deficiência e a falta de intérprete de Libras – a língua brasileira de sinais.

Algumas das cenas são engraçadas, justamente pela espontaneidade de Nathalia: ao pegar no flagra uma comissária de bordo uniformizada saindo do banheiro, ela dispara: “Mas que cara de pau”.

Muito o que fazer antes da ONU

Antes de realizar o sonho da ONU, Nathalia, que vive com os pais e um irmão mais novo no bairro de Higienópolis, conta que precisa fazer muito aqui no Brasil. Já fez estágio no gabinete da deputada federal Mara Gabrilli (PSDB-SP), então vereadora na Câmara Municipal de São Paulo.

Hoje, quer montar seu blog para pessoas com deficiência e conseguir uma vaga de mestrado na Faculdade de Direito da USP – a estudante acaba de concluir o Trabalho de Conclusão de Curso na Faculdade Damásio de Jesus. O tema é a inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho.

Ao mesmo tempo, a jovem se prepara para prestar concurso para a Magistratura do Trabalho e ainda acalenta outro sonho: ser professora, embora não tenha passado por boas experiências na escola. “As escolas no Brasil não estão nem um pouco preparadas para o tema. Falta tato e conhecimento.”

Ela se lembra particularmente de uma professora de desenho. “Ela dizia: ‘Tive um aluno sem um braço que desenhava melhor que você. Você não vai conseguir passar no vestibular”, diverte-se ela com a memória. Nathalia diz que o bom humor vem da seguinte constatação: quando você tem um problema dessa natureza pode ficar bravo ou levar na esportiva e tentar mudar as coisas. Ela ficou com a segunda opção.

Sobre o filme, ela só espera que “as autoridades olhem. Quando se fala em Copa, todo mundo fala em estádio. Quero que as companhias e a Infraero também olhem”. As filmagens foram feitas no ano passado, e alguns aeroportos já concluíram as reformas.

Sem gol

Se em aeroportos e companhias, está difícil para pessoas com deficiência, dentro dos estádios uma bela iniciativa ficou no limbo. Em 2011, foi prometido por membros do COL (Comitê Organizador Local) da Copa do Mundo 2014 a entrega de 32 mil ingressos para pessoas com deficiência de baixa renda.

Porém, nesta quarta-feira (11/6), o gabinete do deputado Romário (PSB-RJ) confirmou que não recebeu qualquer retorno da promessa feita. O anúncio teria sido feito pelo ex-jogador e membro do COL Ronaldo, durante coletiva de imprensa, e teria sido testemunhado por outros deputados da Frente Parlamentar em Defesa da Pessoa com Deficiência, como a deputada Mara Gabrilli.

Outra polêmica que acontece no dia da abertura da Copa do Mundo, nesta quinta-feira, 12/6, é a exibição do exoesqueleto robótico do neurocientista Miguel Nicolelis. A ideia é que cadeirantes possam voltar a se movimentar, usando a ferramenta. Mas ela é considerada cara e de difícil adaptação por alguns cadeirantes.

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