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Convidados
7 de junho de 2015

Aline Rocha: treino e dedicação em busca dos Jogos Paralímpicos 2016

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Depois de reaprender a viver, recordista diz que não conheceria o esporte se não tivesse se tornado cadeirante

Aos 24 anos, Aline Rocha é tricampeã (2012-2013-2014) da Corrida Internacional de São Silvestre e se prepara para buscar um lugar na equipe brasileira de atletismo dos Jogos Paralímpicos Rio2016 – que acontecerão no Rio de Janeiro, de 7 a 18 de setembro do próximo ano –, evento que reunirá 4350 atletas de 176 países.

Nascida em Pinhão (PR), Aline ficou paraplégica aos 15 anos, em decorrência de um acidente. Há cinco anos, se tornou atleta e, em 2014, deixou a casa da família, em Campos Novos (SC), para viver em São Caetano do Sul (SP), onde intensificou os treinos como filiada ao Instituto Elisângela Maria Adriano (Clube IEMA).

Todo o empenho da atleta, preparada pelo técnico Fernando Orso – com quem Aline namora há cinco anos – já demonstra resultados mais que positivos. Na temporada 2015, além de outras significativas marcas e medalhas, ela quebrou o recorde nacional dos 5.000 metros (T54), durante o Open Brazilian Championship Caixa Loterias e venceu a Maratona de São Paulo – a maior do país.

Dentre os demais títulos de Aline, o destaque fica por conta do terceiro lugar conquistado em 2014, na prova de meia-maratona da 34ª Oita International Wheelchair Marathlon, a principal competição mundial para atletas corredores em cadeira de rodas.

No momento, Aline acaba de voltar da Suíça, onde participou de mais uma etapa do Grand Prix 2015 de atletismo, em Nottwil. Durante a competição, realizada de 29 a 31 de maio, além de ter alcançado as melhores marcas pessoais nas provas de 200m e 400m, a atleta bateu dois recordes brasileiros, nas corridas de 800m e 1.500m. O próximo objetivo é conquistar bons resultados para garantir uma vaga nos Jogos Paralímpicos do Rio 2016.

A seguir, Aline Rocha conta um pouco de sua vida e dos próximos objetivos, em uma entrevista exclusiva a Nathalia Blagevitch.

Fernando Orso, Nathalia Blagevithi e Aline Rocha
Fernando Orso, Nathalia e Aline

Nathalia – Aline, obrigada por receber o Caminho Acessível. Gostaria que você falasse um pouco de sua história para a gente.
Aline – Tenho 24 anos e, aos 15, sofri um acidente de carro, na volta de uma viagem com minha mãe e meu irmão, que estava ao volante. Era final de uma tarde chuvosa e, quando ele foi ultrapassar um caminhão, notou um carro na pista contrária e, imediatamente, os dois motoristas esterçaram para o acostamento, o que provocou uma colisão frontal. Embora estivesse no banco de trás e com cinto de segurança, eu estava sentada no meio e, com o impacto, acabei esmagada pelo encosto do banco e fiquei paraplégica.

Nathalia – Como você analisa o tratamento da pessoa com deficiência na sociedade atual? Eu, como mulher com deficiência, percebo que a maioria me trata como coitada ou como super-heroína. Você já se sentiu assim?
Aline – Depende do tipo de pessoa que vem falar comigo. Os mais idosos costumam se preocupar mais, pois vêm de uma época em que o cadeirante era extremamente dependente, ficava dentro de casa e não saía. Às vezes, até perguntam ao Fernando se ele é meu cuidador e se eu sou a patroa dele. Ou seja, subestimam minha condição e me sinto desprezada, mesmo. Os mais jovens, porém, como sabem que sou ligada ao esporte, parecem me ver mais como um super-herói que venceu barreiras. Aliás, na faculdade de educação física, já tive oportunidade de trabalhar com crianças e notei que elas não me viam nem como coitada, tampouco como super-herói. Simplesmente, me tratavam como qualquer professora, pois elas nos veem de uma forma totalmente pura, sem diferença.

Nathalia – E você tem alguma história curiosa sobre esse “coitadismo”?
Aline – Uma vez, eu e meu namorado fomos à feira fazer umas comprinhas e, quando chegamos, um senhor perguntou ao Fernando se eu era rica e, por isso, ele estava comigo. Quando Fernando respondeu “ela é minha namorada”, o senhor disse “nossa, você é um cara sincero, né!? Muito corajoso”. Ou seja, como comentei, as pessoas com mais idade tendem a pensar no cadeirante como um coitadinho, mesmo, que precisa de cuidados.

Nathalia – O que você acha de sermos chamados de portador de necessidades especiais, pessoa com deficiência ou, às vezes, até de problemática, como já fui chamada? Como você enxerga as nomenclaturas utilizadas?
Aline – Eu sou bem chata, nesse sentido. Afinal, eu não porto uma deficiência, porque não posso deixa-la em qualquer lugar. Sobre necessidade especial, isso é algo que todo mundo tem, então acho adequado usarem o termo pessoa com deficiência, pois problema, todo mundo também tem, né!?

Nathalia – E quanto à mídia? Você acha que os termos utilizados são adequados?
Aline – Também vemos todo tipo de nomenclatura na mídia. Mas me preocupo muito com quem vai estar narrando as transmissões do Rio 2016…

Nathalia – Como você vê a questão da acessibilidade no Brasil?
Aline – Nossa, é bastante precária. A acessibilidade das ruas e calçadas é lamentável. Na maioria dos lugares, eu ando na rua, no meio dos carros, pois não dá para circular pelas calçadas, principalmente, nas grandes cidades. A cada entrada de garagem, tem um degrau ou desnível, sem falar dos buracos.

Nathalia – Mudando de assunto, soube que você fez tratamento na Rede Sarah de Hospitais de Reabiliatação. Você acha que isso foi um diferencial na formação da Aline de hoje?
Aline – Fui logo no ano seguinte ao do acidente. Um médico da minha cidade, que tem filho cadeirante, me indicou e tive a oportunidade de conhecer uma realidade completamente diferente. Na primeira vez, fiquei dois meses por lá, fiz diversos exames, atividades, fisioterapias e avaliações médicas. Além disso, tive contato com diversas modalidades esportivas e fiz várias atividades. E, como eu consegui ir cedo para o Sarah, acabou sendo uma experiência que abriu demais os meus olhos. Ou seja, foi lá que aprendi a ser independente e, por isso, acho que o Sarah foi fundamental para mim.

Nathalia – Como foi esse período?
Aline – Foi no Sarah que reaprendi a viver e a fazer todas as coisas básicas. Tive aulas sobre a lesão, sobre como funciona a bexiga, aulas para sair de casa, andar pelas ruas… aulas para fazer tudo! Foi lá que saí das fraldas, aprendi passar para a cama, tomar banho, circular na rua, subir degrau, descer rampa, usar escada rolante etc. Ou seja, todas as coisas básicas, inclusive tive aulas de como fazer as atividades domésticas, como cozinhar, varrer a casa, tudo!

Nathalia – E como é a convivência, por lá?
Aline – Conheci bastante gente, incluindo pessoas de diversas profissões e de todas as partes do Brasil. O encontro mais impactante foi com médicos cadeirantes porque, até aquele momento, eu pensava que seria impossível realizar o sonho de ser médica. Enfim, conheci muita gente que não fez da deficiência uma limitação. Foi uma grande oportunidade!

Nathalia – Você queria ser médica? Ainda sonha com isso ou desistiu, em nome do esporte?
Aline – Sim, eu queria ser médica e, depois do acidente, pensei que não poderia mais. Várias pessoas diziam “ah, como você vai poder ser médica?”. E eles queriam que eu fosse trabalhar em algum lugar, atrás de um computador, em um escritório. Mas, depois que fui para o Sarah e vi que qualquer coisa era possível. Fiz cursinho e prestei vestibular algumas vezes, mas não conseguia e, por sugestão do meu namorado, prestei educação física, entrei na faculdade e me apaixonei por isso. Depois, já não queria mais medicina (risos).

Nathalia – Você pretende se especializar em alguma área, como trabalhar com pessoas com deficiência, por exemplo?
Aline – Uma das coisas mais difíceis de eu ter trocado Santa Catarina por São Caetano foi deixar a faculdade, em Joaçoaba, na última fase. Como eu não sabia se me estabilizaria aqui, não concorri a nenhuma vaga. Além disso, eu não estava conseguindo conciliar mais as competições e a faculdade… mas, ainda pretendo terminar os estudos, me formar e me especializar em fisiologia ou em esporte adaptado. Aliás, quero fazer tanta coisa…

Nathalia – Você tem vontade de voltar a andar?
Aline – Não! Quando sofri o acidente, tive de sair das fraldas de novo, voltei a ser criança. Eu digo que eu reaprendi a andar. E, nossa, eu jamais imaginei estar aonde estou hoje, no esporte, sonhando em poder representar o Brasil na paralimpíada. Se eu voltar a andar, vou fazer o quê!? Ou seja, não me vejo voltando a andar, pois está tão bom assim! Faço tudo o que eu quero e, com a cadeira de rodas, vou para qualquer lugar, até para o Japão. Se não fosse eu ter ficado cadeirante, eu não teria conhecido o esporte e eu não estaria como estou. Então, ao invés de reclamar que eu estou na cadeira, eu dou graças a Deus por estar viva. É o que importa!

Nathalia – Você sofreu algum tipo de preconceito na faculdade?
Aline – Pelo contrário! Meus colegas sempre me receberam de braços abertos e foi uma coisa muito bacana… fui a primeira cadeirante do curso de educação física da Unoesc.

Nathalia – É verdade que você, antes do acidente, não gostava de esportes?
Aline – A vida inteira eu odiei esportes. Desde criança, fugia das aulas de educação física e detestava tudo o que era relacionado à atividade física. E, depois do acidente, não foi muito diferente, especialmente porque a cadeira se tornou útil, pois demonstrava que eu não podia fazer nada. Além disso, eu nem sabia que poderia fazer alguma coisa e o professor também não incentivava. Só me tornei atleta depois que terminei o ensino médio.

Nathalia – Como é sua rotina atual?
Aline – Faz um ano que estamos morando em São Caetano e a mudança foi focada no esporte. Então, treino todos os dias. Pela manhã, de segunda a sexta, sempre treino na pista – às vezes, à tarde, também. À noite, três vezes por semana, faço musculação. Em geral, acordo cedo, vou para a pista, volto para casa e faço almoço. Depois, como treino de manhã e à noite, durmo um pouco. Em seguida, vamos para a academia e, entre uma coisa e outra, fazemos um curso de inglês. Ou seja, em geral, minha vida é esporte, esporte e esporte. Inclusive o curso de inglês, pois precisamos saber nos comunicar com outras pessoas, inclusive atletas, quando participamos de competições internacionais.

Nathalia – Onde você treina?
Aline – Eu treino na pista da BM&F Bovespa, em São Caetano, na Grande São Paulo, e a academia fica bem em frente à pista, mesmo. Aos domingos, eu treino na rua, justamente para me preparar para esse tipo de prova. Meu único dia de descanso é o sábado (risos).

Nathalia – O que você diz a outras pessoas com deficiência ou para quem acabou de se tornar cadeirante?
Aline – Eu acho importante falar que não podemos esperar por um milagre para começar a viver. Mas, sim, que temos de viver para que a gente mesmo faça com que o milagre comece na nossa vida. Para mim, ao menos, foi assim que aconteceu… e eu nunca vi a cadeira de rodas como um monstro. Desde o início, entendi que eu estava ali e era na cadeira que eu precisava seguir em frente. Eu, pelo menos, vivo normalmente e não sinto falta da minha vida como era antes. Ou seja, a pessoa tem de encarar a vida e seguir em frente, sem ter vergonha. Agora, mais uma vez, lembro da importância que o Sarah teve na minha vida. Quando você chega lá, eles não te dão esperanças milagrosas, mas te mostram toda a realidade, baseada no “vamos te ensinar a viver”. Enfim, independentemente da condição física, costumo dizer que, se você quer fazer alguma coisa, tem de seguir em frente e fazer! A vida continua…

 

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