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Na Mídia
10 de setembro de 2010

Leda Blagevitch: "Em tudo eu consigo enxergar uma oportunidade"

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A luta, a determinação e o esforço são proporcionais ao retorno

Plena Mulher | Setembro|2010

Plena Mulher - Leda BlagevitchLeda Regina Blagevitch, 45 anos, mãe de dois filhos, Nathalia e Guilherme. Uma mulher que consegue equilibrar com sucesso a carreira, o casamento e a maternidade.

A filha Nathalia é portadora de necessidades especias. Ser mãe de uma pessoa especial traz uma responsabilidade ainda maior: a de vencer seus próprios medos e preconceitos, oferecendo a esse filho um exemplo de superação.

Em uma entrevista muito agradável, em seu local de trabalho, a Asyst Internacional, onde é diretora, Leda nos conta sua história de vida. Muito sorridentre, vai falando e não vemos o tempo passar, já que Leda tem muito para contar.

Como é a Leda Regina?

Quando eu tinha 16 anos, meu pai – acho que felizmente – saiu de uma multinacional onde trabalhava há muitos anos, foi tentar manter uma empresa própria e as coisas não deram tão certo como se esperava. Quando eu vi aquela angustia, aquele querer dar, querer fazer e não poder, fui logo buscar o meu caminho.

Arrumei um emprego e meu pai perguntou quanto eu ia ganhar, eu falei:

– Tanto.

E ele disse:

– Eu podia dar o dobro para você ficar em casa, porque é muito pouco. Deixe que eu vou te arrumar um emprego no consulado. Vou falar com um amigo meu.

Agradeci, porém resolvi trilhar meu próprio caminho. E fui trabalhar, dando aulas de inglês. Depois de um tempo já estava dando aula para executivos, mais um tempo e já estava como coordenadora em uma escola de inglês. Eu fui com tanta sede ao pote, olhando para o meu pai naquele desespero, que pensei:
– Eu não quero isso pra mim.

Foram muitas lutas e conquistas. Hoje, vejo minha filha querendo fazer a mesma coisa e eu acho ótimo. Como eu tive muito respaldo dos meus pais, isso eu adoto com minha filha também.

Dos 20 aos 26 anos trabalhei no Maksoud Plaza Hotel, trabalhei muito, sempre muito responsável, comprometida embora ainda muito jovem.

Casei com 24 anos, trabalhando sempre, e cuidando da casa. Meu marido não aceitava empregada em casa. Lembro de estar na cozinha chorando e ele na sala lendo uma revista. Aí pensei: – também quero ler a Veja. Ele veio de uma família muito conservadora, principalmente quando o assunto era o papel da mulher, ‘’a dona de casa’’. Com o tempo, vi o que não queria para mim.

Você soube o que não queria, e qual era o caminho a seguir?

Tudo isso me jogou para o caminho certo. O meu caminho era ganhar dinheiro, viajar, construir algo… Enfim, determinei algumas coisas para mim e fui à luta. Não tinha mau tempo, dormia tarde, acordava cedo, saía nos finais de semana. Trabalhava muito, mas adorava. Aprendi muito também.

Nessa época, eu trabalhava com marketing e eventos. Foi quando meu irmão, Francisco Ricardo, me convidou para trabalhar na Asyst International. Ele estava começando com sua empresa, dando aulas na época em que estavam migrando dos computadores de grande para pequeno porte. Francisco Ricardo e o sócio davam aula para as pessoas aprenderem DOS, desenvolviam sistemas. A empresa estava crescendo e ele precisava de alguém para ajudar, mas não podia me dar as mesmas vantagens que eu tinha no Maksoud. Mesmo assim eu acreditei e aceitei, sabia que ia dar certo.

E a Nathalia, neste meio como foi?

Estávamos a todo vapor, não tínhamos muita estrutura ainda, fechávamos treinamentos imensos, eu dava aula para executivos, desmontava micros, saía de clientes localizados em Guarulhos e deslocava-me para outros localizados do outro lado da cidade, em Osasco, dando aula dentro das corporações. Foi quando descobri que estava grávida. E, estressada, correndo de um lado para outro, passei uma gestação muito corrida. Aí chega a Nathalia, portadora de uma deficiência, e eu me sentia culpada.

Um dia estava com minha mãe no hospital – ela tinha feito uma mastectomia – e tinha uma senhora imensa, grávida de nove meses, esfregando o chão do hospital, e minha mãe falou: você acha que a culpa é sua pela seqüela neurológica com a qual a Nathi nasceu? Olha, se fosse por esforço físico, todo filho ia nascer com algum comprometimento.  Foram longos tempos de terapia para tirar minhas culpas…

Qual era a deficiência, qual foi o diagnóstico da Nathalia?

A causa foi uma insuficiência placentária muito aguda. De repente a neném parou de mexer, porque a placenta não conseguia mais nutri-la e oxigená-la, mas só descobriram isto muito depois do que deveriam, quando já estava no processo inverso: ao invés de alimentar, a placenta estava roubando alimento e oxigênio do bebê. Já no meu segundo filho descobriram quando começou.

O diagnóstico foi na hora do parto?

Não, ela nasceu bem. Foi quando ela tinha quatro meses que começamos a observar que quando ela fixava um ponto os seus olhos pareciam caça níqueis – um subia e o outro descia. Tive a sorte de ter um excelente pediatra que pediu uma ressonância para ver o que estava acontecendo. Aí, descobriu-se uma lesão, um sangramento do lado esquerdo do cérebro. Naquela ocasião me disseram: essa lesão no cérebro pode afetar a parte motora, intelectual e verbal, vamos acompanhar.

Aos seis meses não sentou, pronto, a parte motora estava comprometida. Com oito meses, percebemos que ela era bem esperta, portanto estava tudo ok com a parte intelectual. Com um ano e pouco, começou a falar. O problema realmente estava só na parte motora. É um comprometimento grande, que gera uma série de reduções de mobilidade e foi muito complicado. No primeiro aniversário em que a levei, vi as crianças correndo, brincando, e a minha filha não podia. Voltei para casa chorando. Mas depois disso, pensei: o que eu posso fazer? Tem remédio que vai tomar e sarar? Não. É para sempre? É.

Quando ela tinha cinco anos, me perguntou: – Mãe o que eu tenho é para vida toda? Naquele momento, foi difícil de responder…

A Nathalia sofreu algum tipo de preconceito?

Sim, ela sofreu preconceito. Como o preconceito da atriz Natália do Valle, na novela Viver a Vida, em que a Ingrid, sua personagem, era muito preconceituosa com a Luciana/Aline Morais, que era cadeirante. Mas hoje a minha filha diz: – Ah, mãe, hoje está muito mais na moda ser deficiente do que não ser. É muito “in” ser portadora.

Você buscou ajuda psicológica?

Não. Fui correr atrás do que era possível fazer. Fisioterapia, hidroterapia, equoterapia, tudo que me disseram eu fui atrás, fiz tudo. Tudo que a Nathalia podia ter ela teve como tratamento.

E o trabalho?

Quando a Nathalia tinha sete meses eu parei para me dedicar somente a ela. Aí eu tinha tempo, mas não tinha dinheiro e tinha que pedir para o Roberto (marido). Imagina, desde os 16 anos trabalhando, sem pedir nada a ninguém! Pensei de novo: – eu não quero isso para mim.

Voltei a trabalhar que nem um avião, até porque os tratamentos da Nathalia custavam muito caro. E foi quando a Asyst International começou a crescer, começamos a ganhar grandes batalhas. Eu sempre fui muito responsável, comprometida, otimista, me sinto uma guerreira. Hoje lidero uma equipe de executivos de negócios, que são o motor de venda da corporação e um apoio comercial, que alimenta os executivos que estão na rua gerando oportunidade. Nossa empresa tem hoje mil e cem colaboradores no Brasil, Argentina, Chile e México. Atendemos 100 países em 12 idiomas diferentes.

Qual foi o aprendizado?

Aprendi a focar. A vida particular me mostrou que é preciso focar nas potencialidades e não nas fraquezas. Na vida comercial, de gestora de equipe, de empreendedora, estou focada nos ganhos, acertos e triunfos.

E o casamento, como estava?

Começamos a ter idéias, caminhos e escolhas diferentes, e o casamento foi se desgastando.

Tudo que você é hoje, com a sua determinação, pode-se dizer que teve a influência da educação que você recebeu de seus pais?

Meu pai entrou com a luta, teve um monte de derrotas, mas foi um batalhador. Minha mãe entrou com o equilíbrio, ela sempre foi muito ponderada, fez uma mastectomia, pegou uma bactéria, ou seja, teve câncer, infecção hospitalar, cinco AVCs e nunca disse um “ai”, nunca reclamou de nada.

Mas sei que a luta agora é minha, correndo para frente. Estou com 45 anos, olho para tudo que já passei desde os 16 anos – são 30 anos trabalhando – e penso: ainda tem muito mais!

Sofreu algum preconceito profissional?

Sim. Dentro da própria corporação. Por muito tempo, até eu me separar, usava o sobrenome do marido. Não queria que soubessem que eu era irmã do Francisco (irmão, sócio e presidente da empresa). Eu nunca quis ser julgada pelo parentesco, se tivesse que ser julgada seria por resultado.

”EM TUDO EU CONSIGO ENXERGAR UMA OPORTUNIDADE”

Filosofia de vida?

A luta, a determinação e o esforço são proporcionais ao retorno. Estou num momento de qualidade de vida.

O que é dar amor para você?

Primeiro é se dar ao respeito. Escutei do pai dos meus filhos, na falta de ajuda financeira – eu dou amor a eles. Para mim, dar amor é pensar no futuro, ter perspectiva e conhecimento. Dar amor é pensar na pessoa como um todo, no bem-estar psicológico, físico, é dar remédio quando está doente, é levar ao pediatra. Eu perguntei a ele – dar amor é abraçar? Poxa, deixa que eu fico com o amor e você assume o resto [risos]. Dar amor é vestir, é dar comida. Dar amor não é só abraçar.

Você ainda teve um segundo filho, o Guilherme. Como aconteceu, se a relação já estava conturbada?

Sempre quis ter mais de um filho, depois de algumas dificuldades para engravidar novamente, resolvi desistir. Aí relaxei e acabei engravidando, e o Guilherme nasceu sem sequelas.

Eu tinha conhecimento de que a grande maioria dos casais com filhos com deficiência acabam se separando, talvez por mexer muito com a estrutura familiar, que vai desmoronando.

Já sabemos que você gosta de trabalhar muito. Mas e os momentos de lazer, como são?

Eu respeito muito meus momentos de lazer, sou workaholic sim. Mas eu estou numa idade em que tenho que ter equilíbrio. Procuro muito participar da vida dos meus filhos, levá-los até a escola, na faculdade, estar presente.

Cuido da minha saúde, faço meu pilates, caminhada. A caminhada é a minha terapia. Enquanto eu ando, rezo e medito em meus pensamentos. Não deixo de fazer no mínimo duas vezes por semana, se não ninguém me aguenta, é a minha válvula de escape. Então, cuidando de mim, fico bem para cuidar da minha família.

Tem momentos que são blindados: a partir das 19h preciso e quero estar com meus filhos, jantamos todos os dias juntos. Nos finais de semana, sempre que possível, vamos para o litoral. Eu me abasteço disso, é o meu momento de descontração.

Você é feliz?

Sim, muito feliz! Eu consegui tudo que queria, escrevi a minha história do jeito que eu quis.

Você se sente uma plena mulher?

Sim. Faria tudo de novo. Se eu tivesse que reescrever minha história, acho que não iria mudar nada. Eu me sinto uma plena mulher, sim. E acho que tenho o melhor produto, o melhor trabalho, o melhor marido, a melhor filha, o melhor filho.

Acho que é complexo de auto-estima elevada [risos], acho que tudo está sempre ótimo!

Fonte: Plena Mulher

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