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Na Mídia
5 de dezembro de 2014

No dia mundial e nos outros também

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Livro lançado por Nathalia Blagevitch lembra o quanto nossa sociedade ainda precisa tirar os obstáculos da frente de pessoas como ela

Papo Reto | 5|12|2014

Papo Reto - BiografiaNesta semana celebramos no dia 3/12 o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência. Particularmente, não gosto de efemérides do tipo, pois elas me lembram anualmente o quanto falhamos enquanto sociedade. Um dia para as pessoas com deficiência aponta a nossa deficiência em tornar a sociedade mais acessível para todos.

Pois esta data me lembrou de uma conversa boa que tive, um pouco antes da Copa do Mundo, com uma moça simpática e bonita. Logo no início da entrevista, ela explicou com bom humor sua condição física. Disse que precisava de ajuda para andar, como alguém precisa de ajuda numa quadrilha de festa junina. De braços dados, ela disse, “vou longe”. Nathalia Blagevitch Fernandez, de 23 anos, teve paralisia cerebral, mas isso nunca a impediu de perseguir, e vencer, uma série de obstáculos.

Agora, a bacharel em Direito tem sua biografia lançada – o livro “Tente outra vez – o caminho de Nathalia Blagevitch em uma sociedade deficiente” (Editora de Cultura), de autoria de Rogério Godinho. Muito legal a publicação. Começa com o nascimento de Nathalia e o choque de sua mãe, Leda. A descoberta da condição, as frequentes visitas a profissionais da área de fisioterapia e neurologia, a dinâmica da família, totalmente revirada com seu nascimento.

Como em histórias (boas) de superação, a Nathália surpreendeu a todos, venceu muitos obstáculos: formou-se em Direito, foi estagiária da deputada federal Mara Gabrilli (PSDB-SP), quando ela era vereadora, fez seu documentário e quer ir para a ONU.

Nathalia faz a sua parte, e muito bem. Aprendeu a andar, falar, enfrentou professores nem sempre compreensivos com sua situação, atravessou a adolescência se sentindo sempre mais diferente, mas passou por todas essas fases. Já a sociedade, como diz o título, é deficiente demais para enxergar o tesouro escondido atrás de pessoas como Nathalia e tantas outras.

A seguir os principais trechos do bate papo que 1 Papo Reto teve com Rogério Godinho, autor do livro:

Qual era o seu conhecimento do universo dos deficientes físicos/intelectuais antes de escrever o livro?

Foto: Rogério Godinho/divulgação

Quando assumi o projeto, não tinha nenhum conhecimento específico do ponto de vista médico. Mesmo hoje, após um ano de pesquisa, não sou especialista, embora o livro traga as informações necessárias para se compreender a história de Nathalia. Meu objetivo era mostrar uma doença social. Ou seja, queria que o leitor se aproximasse desse grupo representado por Nathalia, que se colocasse no lugar dela e que compreendesse a existência e o mecanismo da discriminação. Em geral, as pessoas estão cegas para essa realidade, não por falta de generosidade ou virtude, mas por estarem distantes dos grupos discriminados. A empatia não brota do vazio, ela exige que as pessoas se coloquem no lugar das outras e, para isso, é preciso informação, conhecimento, vivência nessa realidade. E a narrativa do livro pode ajudar nesse processo.

Sem dúvida, a vida de Nathalia Blagevitch dá não apenas um livro como um filme. Você considera que ela pode ser uma inspiração para outros jovens com limitações físicas?

Certamente. Faço votos para que percebam como uma pessoa como Nathalia pode perfeitamente executar qualquer tarefa, desde que tenha o desejo e se disponha a isso. E, mais, que percebam a importância de exigir tratamento igualitário. De serem cidadãos.

Fale-nos de sua carreira de escritor. A opção por biografias aconteceu por acaso ou você já pensava em apostar nesta vertente?

Comecei a estudar técnicas narrativas quando ainda estava na redação. Poucas publicações no Brasil despertaram para este fantástico meio de transmitir uma mensagem e nenhuma deu atenção suficiente às técnicas existentes. O mais próximo que se chega por aqui é o chamado jornalismo literário, no qual se dá muita atenção à ambientação e ao personagem e pouca a elementos como estrutura e conflito. Coloquei essa visão em prática com um pequeno grupo de repórteres e foi uma experiência muito boa. Entretanto, o livro biográfico ainda é o melhor espaço para utilizar essas técnicas. E foi assim que eu migrei definitivamente das redações para o espaço autoral individual. Estou imensamente feliz com minhas três biografias – O filho da crise, Tente outra vez e Nunca na solidão – e espero lançar muitas outras nos próximos anos.

A biografada possui uma história fantástica, contada com riqueza de detalhes. Apesar disso, a família ou a biografada impôs alguma restrição?

Uma condição de Nathalia para fazer o livro era que ela fosse a responsável pela sua própria história. Com exceção do primeiro contato, foi com Nathalia que eu lidei o tempo todo. E ela não impôs nenhuma restrição imediata. Houve situações em que ela se questionou se deveria contar essa ou aquela história, por uma reserva natural de uma jovem de 20 e poucos anos, preocupada com sua privacidade. Sempre que chegamos à conclusão que a história era importante, a decisão acabou sendo contar.

Fonte: Papo Reto

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